segunda-feira, 28 de abril de 2014

LETRAS ENSOPADAS

Ao contrário da maioria, era indiferente ao tempo, se dia de sol ou de chuva tanto fazia, pouco importava, pois qualquer que fosse o estado renderiam incontáveis estórias. Pois estou numa terra muito fértil, que de tão fértil dispensa rega, os factos e personagens da cidade perdoam a inconstância das águas da natureza e a incompetência do homem em distribuí-las.

Não assumi partido em relação ao tempo tal como os outros divididos entre os pró chuva purificadora e fiscalizadora ou contra chuva condenadora e destruidora, os pró sol de praia ou contra sol da catinga, os pró céu nublado de sombra ou os contra céu nublado depressivo, os pró frio estímulo de procriação ou contra frio estimulante da preguiça, os pró humidade ou os contra humidade, os pró vento e os contra vento, por estas bandas havia de quase tudo no clima. Os argumentos a fundamentar cada uma das opções vão desde os económicos, políticos aos culturais com direito a fervorosos praticantes na feiticista arte de amarrar chuvas embrulhadas numa lenda mística.

Toda a parafernália meteorológica a mim era completamente irrelevante, apenas interessava o drama, a tragédia, a comédia, o romance ou o terror que poderia oferecer. Neste aspecto sim, estava acima do bem e do mal, era como que um deus menorzinho para esta questão em particular. Assim podia ser uma bela manhã de alegre sol e suave vento; como, num céu completamente coberto de nuvens ameaçadoras anunciando diurno breu, não mudaria o meu humor. Confesso sentir um secreto prazer nos falhanços dos serviços de previsão meteorológica, porque expunham a frustração dos seus crentes, era o máximo de partido que tirava.

De resto era de um cinismo completo diante das lamúrias do caos em que a cidade se tornava com as chuvas - se é que havia ordem alguma -, aos apelos dos desconsolados de tanta secura, as queixas das vítimas de doenças causadas pela humidade do ar, enfim todas estas preocupações pertenciam a um mundo a parte; pelo menos no que as causas diziam respeito, porque o que queria mesmo, o que deseja profundamente, eram as diversas reacções que a diversidade do tempo propiciavam.

Porém nunca escondi a razão de tanto descaso: letras! Sentia-me o dono das letras, sentia-me o proprietário das sílabas, o todo poderoso das palavras. Com as palavras construía universos paralelos, desconstruía a realidade, fomentava lendas, narrava façanhas, os vocábulos eram como que pedra filosofal ou elixir da vida eterna. Aí sim me importava, interessava doentiamente em descrever tudo o que existe, existiu e existirá, absolutamente tudo, sem limites, sem comprometimento e o único desafio era de resgatar a mágica da palavra como quando 'no princípio era o verbo...'. A minha palavra era escrita e por isso mesmo me bastava a tinta e o papel, ferramentas desconsideradas se do estado do tempo se tratar, aqui não há espaço para cata-ventos, termómetro, anemómetro, barómetro ou pluviómetro.

Fiz-me a via alheio, alheio não; ignorando qualquer que fosse o tempo. Bastava-me observar e em seguida copiar, criar ou recriar ocorrências baseadas ou não no tempo somado clima, porém o clima era muito longo e levava-me a perder o fio de uma boa história, a menos que fizesse dele sinónimo do tempo. Ouvi um murmúrio sobre chover que desprezei. Depois senti certa brisa, e vislumbrei diminuição da luz, ouvi ao longe nuvens colidirem e produzirem trovões uns mais ensurdecedores que outros, assistidos por valentes relâmpagos. Divisei chuva, o que não aqueceu nem arrefeceu; continuei a caminhar pensando no lucro literário deste fenómeno. Rapidamente pingos sucessivos precipitavam-se a cair fugidos de nuvens que abundavam o céu, chegadas ao chão faziam correntes de água, transformando caminhos em pequenos rios. Assistia a tudo maravilhado, pensava sobretudo na capacidade distinta da água de esquivar os obstáculos procurando caminhos para junto do mar. Fantástico!

Deleitado nesses pensamentos procurei condições para escrever, foi aí que me dei conta, do desespero das pessoas por estarem a molhar, da força da chuva a demolir obras mal construídas, das cansadas estradas a abrirem crateras, na energia eléctrica a desaparecer, era uma reacção em cadeia interessantíssima, pensava eu. Procurei com os olhos algum abrigo! Tristemente dei-me conta de que não poderia escrever a minha estória à chuva, tentei olhar para o céu, e de repente as gotas eram mais grossas e agressivas... Ao lado vislumbrei uma esplanada pareceu-me ser o local ideal, lá chegado sentei-me não sem antes o garçom perguntar se ia consumir alguma coisa, uma vez que só podiam ser abrigados clientes, achei um autêntico disparate, mas não podia perder o foco, havia uma estória a ser escrita.

Pelo menos era essa a intenção, escrever... Olhei para a caneta não funcionava, e o papel inútil para a escrita, chamei rapidamente o garçom e fiz o pedido: - uma caneta, papel A4 branco e chá. O rapaz retrucou: - a caneta pode-se ver, porém o único papel que temos para dar é o guardanapo, deve chegar para escrever um lembrete. Aquelas palavras ressoavam-me na cabeça como golpes, sentia raiva daquela estúpida esplanada que não servia papel em condições, vociferei ao moço sobre a importância de uma estória da chuva. Este indignado respondeu que devia dar-me por feliz, por perder apenas a estória, pois os outros perdiam tudo o que tinham na vida; de seguida foi-se embora.

Pensei no meu drama das letras ensopadas, que foram com a água sabe-se lá para onde? Provavelmente acompanhariam o seu ciclo e num dia qualquer voltariam em forma de nuvem, humidade ou gelo, sentia-me vazio pois a minha estória ia a medida que toda aquela água caia, olhava triste para as pessoas ao lado que dialogavam acerca das suas perdas, da despreparação da cidade para tanta água de S. Pedro. Mas as chuvas sempre existiram, não sei porque é que se tornaram numa tragédia. Com mais alguns minutos de pesar, compreendi a expressão dos pobres que nada tinham, mas que tudo perdiam nas intempéries do tempo.

Fez-se luz e a indiferença não era mais minha, mas do tempo esse malandro que não queria saber da preparação de nada nem de ninguém, se pobres ou ricos, vinha na forma de seca ou de tempestade desinteressado se necessário ou não. O tempo esse sim era o verdadeiro deus, e exigia do homem adoração, reverência, poderoso como só ele. Afinal ele o vilão da obra humana, tão velho como a própria Terra, ele o causador do bem e do mal, partícipe do gene da vida.

Perdi a minha estória e vivia na hipocrisia do desconsolo do meu próprio drama, punido pelo pecado da indiferença, podia ter sido mais solidário. Foi-se a história, ficou-me o drama pessoal misturado com lama e destruição de uma postura. Pobre de mim e das minhas letras ensopadas.

sexta-feira, 13 de setembro de 2013

MEDIOCRIDADE

Há muito que um pensamento martela os meus neurónios - talvez agora se explique muitas coisas no meu comportamento -, além disto a ideia já foi exercitada em inúmeras mutambas de 'chatos' como eu - 1 Coríntios 15:33 - Não vos enganeis. As más companhias corrompem os bons costumes  -, as vezes com graça, entretanto na maior parte delas com pesar. É uma preocupação legítima e na minha opinião pode já configurar uma preocupação de Estado, esta ideia é partilhada por um certo grupo de cidadãos além dos que comigo privam (e agora publico), que são de opinião que já é uma questão política de alto nível, há que se ter coragem e determinação para enfrentarmos este grave problema.

Este problema há muito que deixou de ser conjuntural, agora é mesmo estrutural e a velocidade cruzeiro vai se tornando cultural; daí a passar por desculpa de que é da nossa génese, maneira de ser e de estar... são dois passos: - Há porque, angolano é 'mbora memo' assim!

O pensamento, que passou a problema, depois preocupação e agora questão em análise, é estrutural porque está na base, bem no começo da obra, e notem que a obra aqui sem muito esforço entende-se em sentido duplo, num primeiro momento no sentido próprio e num segundo no sentido figurado; afinal estamos num país-canteiro, este canteiro que é de obras, sem nos importarmos de que material são feitas, se atende as nossas dificuldades objectivas ou subjectivas, se bem que em boa verdade são imensuráveis os ganhos políticos no meu, no dizer dos outros e todos. Deixemos as obras que como previamente referi são mero exemplo, tendo obviamente em devida nota o sentido polissémico (é importante chamar atenção, as vezes as pessoas de per se não notam esta refinada e novíssima, ao mesmo tempo que subtil técnica de expressão).

Retomando ao alicerce, as fundações ou começo de obra, para fundamentar o entendimento de que se trata de uma questão estrutural atentem ao seguinte raciocínio: somos um país a nascer, sim porque 38 anos de independência para um país é o equivalente ao início da puberdade numa pessoa. Sobretudo, quando temos um país com valores difusos, os próprios que muitas vezes não sabemos quais são, os dos outros que primeiro foi imposto, agora também pode ser imposto só que de uma maneira mais camuflada e pensamos que escolhemos livremente. Não sabemos quase nada sobre a vida, certo é que há debutantes e debutantes, uns mais espertinhos do que os outros e para não ser megalómano nem panco, vamos considerar Angola um adolescente-país normal, ou seja, nem muito bom ou tanto mau.

Os adolescentes caracterizam-se por estarem em aprendizagem contínua, não só por imitação como as crianças, mas sobretudo por começarem com a associação de ideias e a feitura das escolhas com base no raciocínio, embora o fervilhar - exclusivamente em sentido figurado - das hormonas interfira neste processo, embora (propositadamente repetido) esta interferência hormonal seja necessária para a formação física e mental da pessoa. E como o nosso país, o entendimento das suas gentes sobre as coisas do Mundo é básico, primário, inicial, não somos um adolescente-país génio - lembram-se do nem muito bom ou tanto mau?-.

Até aí problema nenhum, pois todos perdoam alguns erros da adolescência, porque ninguém nasce a saber... O problema, questão, pensamento e preocupação - a  ordem é aleatória - prende-se com duas razões: a ignorância e a pseudo-sabedoria, a primeira é petulante é atrevida mas perdoa-se-lhe a ingenuidade; a segunda e mais preocupante é arrogante disfarçada na hipocrisia ou pior pseudo-humildade - sim, o pseudo do pseudo -. E já explico: as pessoas leem três folhetos de literatura de cordel e já se acham entendidas em literatura, escrevem dois versos e se sentem poetas, tocam dois acordes e desafiam Santana, gravam dois vídeos e acham-se merecedores de um Óscar, e podia passar o texto todo a buscar exemplos, como o do estudante universitário que acha que é Lavoisier sem perceber a regra dos três simples, ou Platão, sem entender a 'alegoria das cavernas'.

Apoiamos o poder de iniciativa e o esforço(?) dos empreendedores, mas desencorajamos vivamente a mediocridade, usando padrões a qualidade é medida; aventurar-se é bom, porém é igualmente bom conhecermos os nossos limites e capacidades sob pena de passarmos por palhaços na igreja, ou seja, ser puro sacrilégio.

Quando perante estes egos inflamados de pouco conteúdo, pergunto-me sempre se estou diante do tipo ignorante - o que exigirá uma atitude pedagógica - ou do tipo pseudo-sábio - que exigirá uma atitude mais drástica -. E depois essa mania das grandezas sem ser nem ter, eleva-se a ponto de comprometer toda a Nação, daí sem pretensão alguma alertar que devemos ter cuidado.

Palavras simpáticas de encorajamento para um certo dom, não devem ser tomadas como créditos suficientes para transformarmo-nos em gurus da área, pelo contrário exigem mais responsabilidade e as críticas dirigidas ao nosso 'trabalho'  não fazem do crítico o invejoso de serviço, nem sequer devem ser levadas para o lado pessoal, porque se o trabalho tiver mesmo qualidade ele vai vincar, embora muitas vezes vinquem sem qualidade - verdade, dura, nua e crua -, mas duvido que fiquem para a posteridade - é a esperança..-.

Era esta a preocupação, problema, pensamento e questão que tinha para compartilhar hoje, o caminho faz-se caminhando já dizia um qualquer autor, que não sei de quem se trata, por ora (não vou googlar para ser justo). Agora digam se esta preocupação é nacional ou não?


terça-feira, 6 de agosto de 2013

DEDICATÓRIA AOS ROLE MODELS

Bom dia, 

Tirei alguns minutos para escrever estas linhas, porque tenho a consciência de nunca tê-lo feito antes, pelo menos expressamente. Porém isso não me inibe de fazê-lo agora, já diz o velho ditado ''antes tarde do que nunca' e como não sou adepto de homenagens póstumas, aqui compartilho os meus sentimentos e reflexões.

Muito se reclama sobre o comportamento dos jovens o ócio, a ambição desmedida, a arrogância,a  irresponsabilidade, a incompetência, a indisciplina, todos e mais alguns vícios, não nego de todo o fundo de verdade que estas afirmações carregam, entretanto refuto a ideia de que a culpa é somente dos jovens. 

Não quero aqui usar o argumento da vitimização, aliais estas linhas são como que confissão dos meus, nossos 'pecados'. Pois que, passado a idade adulta não se deve por coerência culpar os pais pela má sorte dos filhos. Se esta afirmação é verdadeira, também não é menos verdadeira aquela segundo a qual as características de um indivíduo se determinam pelas circunstâncias e experiências que este vivencia ao longo do tempo.

No fundo, quero apenas sugerir que no vosso processo de avaliação/julgamento às condutas juvenis tivessem em devida conta que somos aquilo que vimos, ouvimos e aprendemos convosco. A nossa sociedade está proliferada de adultos que se escudam desta função de exemplar, modelo ou padrão de comportamento, fazem e cometem os erros que são a semente dos nossos vícios.

O papel dos pais é fundamental, mas os adultos quaisquer que sejam as qualidades que vistam, ainda mais em África onde os velhos têm o principal papel de orientadores e passadores de de valores são também os responsáveis pela formação da juventude.

E sou muitíssimo grato por convosco ter cruzado, de ter beneficiado da vossa complacência para orientar-me em tudo aquilo que a pequenez e a limitação dos meus progenitores não foram capazes de dar. Vocês determinaram em certos momentos a atitude que tomei (muitas delas acertadas), porque naquele momento souberam exercer o vosso Role Model.

Dou-me por feliz por no mar das dificuldades do nosso país ter cruzado com esses seres humanos especiais, que fizeram e fazem diferença todos os dias com o pensar, falar e fazer, sobretudo o fazer; mas que para mim a diferença mais importante é esta que continuamente presente na minha vida.

Gostaria que este tivesse um efeito multiplicador, tanto para vós como para nós, nesta manhã queria reconhecer que melhor Role Model não poderia ter, desejar outro seria querer-me outro e apesar de todas as minhas insuficiências estou feliz, convosco e comigo.

Atentamente,
Adalberto Cawaia

quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

O Meu Pai Natal Africano

Certamente que muitos de nós de alguma forma já acreditaram no Pai Natal, portaram-se bem durante o ano, escreveram as cartas e entregaram aos pais para que as levassem até ao correio, mas daí até receber as prendas é que tudo muda. Não que ele seja satânico ou membro dos Iluminatti a tentar passar mensagens subliminares como parece estar todo o mundo da fantasia infantil, segundo lendas urbanas. E esqueçam, esta não é uma estória de encantar, tão pouco de desencantar, mas talvez uma justificação dos desencantos, tentar entender porque é que os presentes do Pai Natal, para muitos se não fosse o esforço dos pais, nunca chegaram ou chegariam.

Para começo de conversa, o Pai Natal ao contrário das guerras, mal nutricção, desertificação, malária, HIV e a corrupção não está destinado aos africanos. Senão vejamos, um indivíduo rechonchudo a tender para obeso a menos que seja um problema de saúde cujo peso aumente independentemente do excesso de calorias e sedentarismo, não seria com certeza africano, este tem de trabalhar o dobro e alimentar-se pela metade se quiser sobreviver; o indivíduo vestes roupas quentes de Inverno, aqui temos um Cacimbo quente como nunca será o Verão do Polo Norte, portanto aquelas roupas são no mínimo ridículas aqui, quanto ao trenó este não desliza sobre desertos, estepes, savanas ou florestas, que funcionam com tracção animal de Renas voadoras, se isso acontecesse aqui seria pura magia-negra e o responsável seria apedrejado até a morte; e até mesmo no mundo da feitiçaria africana o uso Renas devia ser demoníaco com tantos outros veados que temos, e a entrada pela chaminé pouco provável porque não fazemos muito o uso delas, nas cubatas não existem, os arquitectos não as projectam e ultimamente há aquecedores eléctricos, o que complica; com essas questões todas é pouco provável que o Santa Claus sobrevivesse por essas bandas!

As crianças aqui, grande parte não sabe escrever porque nunca tiveram uma escola, os correios não funcionam, as pessoas enviam encomendas por amigos e parentes. Além que brinquedos as próprias crianças constroem, com os materiais que vão encontrando, isso quando não estão preocupadas a trabalhar ou a serem soldados numa guerra qualquer agitados pelos amigos do Papai Noel. O Santa Claus responde as cartas em 8 línguas oficiais e nenhuma delas é o Shoza, Kisuahili, Umbundo ou Lingala.Mas parece que desde que a Coca-Cola incentivou que a bebessem mesmo no inverno através doo Pai Natal, um Natal sem ele não é Natal, um Natal em que não se compra e não se vende parece não ser um dia de Família ou então pior, Jesus não nasce. Sem aqueles embrulhos enfeitados debaixo da árvore de Natal não há felicidade e aqueles desejos de Feliz Natal ficam vãos, porque o Natal que era do menino Jesus agora é do Pai Natal, e as famílias não mais se sentam para celebrarem o facto de se terem uns aos outros, mas de trocarem as coisas que o Pai Natal tras os iPads, One Million, Beat's by Dr. Dre, Porshes, Barbies, Boses, Chicos e a lista continua.Se o Pai Natal tivesse um cajado, a baraba farta grisalha, de calções a arejar, a andar num carrro puxado por uma Palanca e descesse cubata adentro eu me portaria bem durante o ano, tocava uma marimba que ele ouvisse, cantaria uma canção e pediria duas únicas prendas para África: Paz e Desenvolvimento.

Por: Nobre Cawaia
16/12/2012

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

MARCHAR, SIM. VIOLÊNCIA, BASTA!


Passaram 15 dias desde a criação do evento no Facebook denominado Marcha a Não-violência, o que também ficou para trás foi a ‘ressaca’ de quem como eu viveu todos os momentos desta; o antes, o durante e o depois.

Como simples usuário da rede social acompanhei ao desespero de familiares e amigos a procura de Jorge Valério, no que primeiro parecia vulgar brincadeira de spam ou pishing, acabou na segunda-feira 1 de Outubro, a confirmar a morte do jovem também conhecido musicalmente por Jay Jay. A desolação, o choque e o medo apoderaram-se de mim, não o conhecia, nunca o vira nem mais gordo ou mais magro, porém, os relatos da forma bárbara como tinha acabado a sua vida, desafiava de todas as formas a minha compreensão enquanto humano. Na verdade aquela notícia para mim, era ‘o demais’ de tanta violência, era o atingir da exaustão de tantos outros relatos cruéis e trágicos, de uma sociedade que afinal era sanguinária, sombria e algo doentia.

A única reacção, diante da impotência que sentia ante o tamanho horror e dor, foi juntar-me a corajosa Níria, que com a Euma e a Dânia propunham-se a sair Luanda adentro a gritar que bastava tanta violência. Primeiro partilhei o evento, depois entrei em contacto com elas a mostrar toda a minha disponibilidade; e como que em telepatia, ligou-me o Sorge amigo e colega de outras causas que também entrara para a fila dos indignados e já tinha falado com as meninas, daí a surgir o René que já estava mais ou menos informado e a Marisa (os únicos que entraram para o grupo sem ter contacto prévio sobre o evento virtualmente), foi só necessitar de pessoas disponíveis para a subscrição da Comunicação dirigida ao Governo Provincial de Luanda para a Realização da marcha.

Neste mesmo dia 3 de Outubro de 2012, quarta-feira estávamos decididos a sair a rua e esta determinação ganhou mais força, após a primeira reunião no Cassenda, a luz de velas na casa do Sorge, éramos desconhecidos uns dos outros, pelo menos as raparigas versus rapazes mais a Marisa, mas o repúdio a violência juntou-nos e deu-nos uma identidade de grupo só vista em amigos de infância. Cúmplices, traçamos o plano de acção e não dormimos até que o que nos propusemos fazer estivesse completo.

Na internet, mais propriamente Facebook nossa base de mobilização, existia uma onde de incentivo e procura de mais informação sobre o evento, uma das questões mais confusas era a da hora, visto que na criação do evento marcávamos para as 9 horas de sábado, e as pessoas não superavam a alteração que afinal tinha sido feita no mesmo dia. Mas apareciam coisas confusas, como a rebaixarem a vida humana à falta de luz, o repúdio por ter sido ‘somente’ pela morte do Jay Jay sendo que tinham havido várias, enfim incompreensões sobre as reais intenções de um grupo de jovens que apenas não queria cruzar os bruços diante da selvajaria dos crimes violentos de qualquer natureza, independentemente da sua vítima ou predador.

Não faltou inclusive assédios políticos de todos os lados, a que rapidamente rejeitamos, reiterando que a marcha não era político-partidária, religiosa, desportivo-cultural, com finalidade lucrativa ou de qualquer outra índole que não fosse o repúdio a violência de todas as suas formas e contra todos independentemente da sua condição social, económica, rácica, género, etnia, ou qualquer outra.
Fomos intransigentes no nosso propósito, foi exaustivo. Nalguns momentos desentendíamos nos pontos de vista, porém partilhávamos tudo, enquanto cultivávamos amizade entre nós, respeito e disciplina pelo trabalho, vivemos bons momentos de camaradagem.

Recebemos apoios de muita boa gente que se juntou a causa, pois eram daqueles que gostavam mesmo de ver um verdadeiro movimento cívico a emergir, o movimento espontâneo de cidadão a fazer pressão social, a cultivar o pensar Angola antes de qualquer divergência que existisse entre nós angolanos e assim fizemos. Gritamos na imprensa, esclarecemos as pessoas, atendemos o telefone, mandamos mensagens, apagamos comentários, sempre no sentido de se respeitar o objectivo preconizado.

Enfim o sábado, já estávamos no dia D, a poucas horas da hora H, nós qual lavradores levantamo-nos cedo, escrevemos o manifesto, confirmamos os escuteiros, estivamos a água, testamos os megafones, montamos os dísticos, falávamos com os agentes da ordem e os bombeiros, envergamos as t-shirt’s, recebíamos as pessoas estávamos quase prontos para marchar…

Até que enquanto concertávamos o esquema para partir, fomos abruptamente interrompidos com a informação de se estava a distribuir panfletos com nomes de assassinos. Ficamos espantados, porque antes alertámos que não era uma marcha de vingança e a família do Jay Jay, principalmente seu pai, senhor Cristo foi extremamente compreensível entendeu o propósito da marca e encarnou o espírito, os parentes e amigos foram muitíssimos úteis e nos apoiaram em grande medida, sem eles a marcha seria um pouco menos. Então quem estaria a causar tal distúrbio, antes mesmo que tomássemos conta da situação vimos civis a agredir outros, nos apercebemos serem na verdade os denominados ‘centraleiros’ que desde o primeiro momento juntaram-se a causa e nós não compreendíamos o que se tinha passado, apenas pedimos que se acalmassem e explicassem. Não entendemos até hoje, entretanto eles continuaram a marcha connosco em frente levando um dos dísticos, apreciamos  a capacidade de superação.

Depois destas desinteligências, seguiram-se as palavras do Réne com o código(zinho) de conduta a ser observado durante a marcha, da Níria sobre o propósito da marcha e do Cónego para que marchássemos com calma, foi sugestão da família do Jay Jay e nós aceitamos. Assim, quando eram 17horas em ponto, a nossa hora H, a marcha começou, foi difícil, sinuosa porque fazíamos questão de não sujar, nem destruir a Baía de Luanda recém reabilitada, na estrada estavam rapazes de motorizadas, bicicletas e patins a seguirem as carrinhas com água que distribuímos ao pessoal, foi tudo espontâneo e voluntário.

Houve um momento em que ficou impossível caminha no passeio e entramos para a estrada. A multidão além das palavras de ordem umas nossas e tantas outras espontâneas, a dado momento soltara-se os balões brancos distribuídos no início, nessa altura olhei para trás e tive a real noção de que afinal éramos milhares a gritar contra a violência, nesses milhares viam-se mesmo alguns rostos mediáticos.

Foi escurecendo, acenderam-se a velas em memória de todas as vítimas de violência, neste momento estava anestesiado de todo o cansaço de correria de frente para trás, distribuição de água, algumas incompreensões com os meus colegas organizadores, gritos no megafone e fiquei na contemplação até ao ajuntamento de todo o mundo na areia no término da marcha em frente a casa do desportista.

Lembra-me de ver os nossos amigos do staff sempre incansáveis desde as primeiras horas da manhã a ajudarem as pessoas, de estarmos em discussão interna sobre uma alteração básica no programa, calei-me queria ter fôlego para ler o manifesto; e fiz, só mais tarde é que vi fotografias de pessoas a chorarem enquanto eu lia, mas durante a leitura nunca me senti sozinho, e não era pelo facto de a imprensa estar defronte a mim, mas porque a cada basta, os participantes da marcha repetiam comigo basta, basta, basta.

Nós só queríamos chamar a atenção da sociedade sobre o mal da violência entre nós, mas tivemos o bónus da comunhão, de congregarmos pessoas de variada diferenças desde origem, forma de pensar à estar. A acusação de que éramos de uma elite a qual o Jay Jay pertencia e defendíamos não nos arreliava, afinal não era um desfile para que soubessem quem somos, nem tão pouco desfilarmos a nossas biografias. Só queríamos dizer basta de tanta atrocidade.

Findas as contas as pessoas falam connosco, que devíamos continuar e assim faremos, ainda não sabemos como mas só o facto de termos levado mais de 3 mil pessoas a rua, fez com que sentíssemos que podemos fazer alguma diferença, com pequenos gestos e pequenas acções. Só queríamos fazer pressão social, só queríamos dar voz as vítimas, mas fizemos também amigos, reconheceram-nos enquanto cidadãos activos e seremos enquanto acharmos que determinadas causas precisam de nós.
Estas palavras são para a Níria que nunca desistas dos teus sonhos, Euma sou teu fã, Dânia a tua energia é fantástica, Marisa o meu afilhado já tem história, Sorge outra vez juntos noutra luta, de tantas outras que teremos e René obrigado amigo, vocês fizeram-me acreditar mais no futuro, na capacidade e sensibilidade das pessoas.

Obrigado!

Em cima, da esquerda para direita: Marisa, Dânia, Níria e Euma. Em baixo, da esquerda para a direita: René, Sorge e Adalberto.



terça-feira, 9 de agosto de 2011

Inventário da Minha Infância


‘Já chegamos, já chegamos camarada, aqui estamos de novo, com vontade de recordar, vamos o passado abrir, aprender o que ele ensina recordar é viver’.

Quando estudar era um dever revolucionário, começávamos assim a 2.ª classe, decorávamos este texto, embora adaptado a uma nostalgia do pretérito, com ajuda da ‘maria-das-dores’ que para muitos funcionava como elixir da disciplina, pois só ela que na escola, casa ou igreja conseguia de facto incutir valores, hoje reprovada por ser violenta, arcaica e contra os direitos das crianças, crianças hoje rebeldes sem causa e desconhecedoras de limites, que não sejam os seus caprichos. Nos esforçávamos para não ficar no lado dos burros e nunca achamos que haver uma fila de burros e outra dos inteligentes era discriminação

Naquele tempo, se não era o Bicar-Bidons, era Dançar nas Cadeiras, jogar ao 35 Vitória, saltar a Semana na corda, jogar a Lata Latinha, simular um Pai e Mãe, jogar ao Tandavale, perguntar se o Lencinho que estava na mão já caíra, apalpar e reconhecer mesmo sendo Cabra-Cega, numa infinidade de jogos e brincadeiras cuja lista interminável desafiava o nosso físico e a nossa imaginação, o companheirismo e cumplicidade, nascia ai com, os primos, os amigos os colegas e os vizinhos que de dia ou de noite, denunciados pelo Sol ou escondidos pela Lua éramos imparáveis.

Cantávamos e encantávamo-nos com a Moringa Pesada do Lucas de Brito, a Mangonha das Gingas do Maculusso, a Professora da Isidora Campos, o Passeio à Huíla da Chana Fançony e Analisa, Bolinha no Pé da Nila Borja, Vamos Dançar da Clélia Sambo, Mamborrô do Mamborrô, Meu Mundo, Mundo Nosso do Dilson e Dinamena que eram delícias da rádio no Caluanda Piô, e na televisão o Carrossel, sem esquecer as populares Atirei o Pau ao Gato, Todos os Patinhos e tantas outras canções…

Criávamos e recriámos os nossos brinquedos das latas e dos fios metálicos, das jantes e dos pneus de carros e de bicicletas, dos botões arrancados dos vestuários, do sapupu de milho e de qualquer outra coisa que servisse de matéria-prima para a materialização da nossa imaginação em que quem tinha habilidade era feliz, quem não tinha comprava dos carros de lata às bonecas de pano.

Deliciávamos dos quitutes da meninice e similares como a paracuca, o galete, o micate, o chupa-chupa, o pé-de-moleque, o estica, o gelado, o algodão doce, a pipoca e ainda a fruta da época que podia ser o maboque, a goiaba, a manga, a banana, a laranja, a gajaja, o loengo, a fruta-pinha, o figo e tantas outras coisas saborosas cujo nome foge ficando apenas a lembrança do sabor e do cheiro.

A televisão víamos a partir das 15 horas até ao chichi-cama, mas dava-nos imensa felicidade assistir a sucessos como o das séries Carrusel del Niños, Chispita, Vovó e Eu, Verão Azul, o musical Balão Mágico ou os desenhos animados He-Man, Micha, Clementine entre outros que eram tão educativos quanto animados.

Éramos muito vaidosos aos domingos, natais e aniversários todos arrumadinhos perdidos entre meias altas, laços, calções, vestidos e suspensórios que ou eram herdados dos irmãos mais velhos, ou escolhidos do fardo ou cozidos pela modista ou alfaiate, poucos usavam roupa nova.

Vivíamos quase exclusivamente para o Natal e o 1.º de Junho que era tão significativo quanto gratificante pelas prendas que recebíamos.

Enquanto isso, o país atravessava situações dificílimas que a nossa infância aceitou e deixou passar ao largo, hoje olhamos para trás e sentimos que de facto éramos felizes e não sabíamos e agarramo-nos a este passado não tão distante como celebração a felicidade, sem que o recreemos aos nossos filhos que vão aparecendo a medida que o tempo passa dando lugar a outras gentes e outros inventários.

Por: Nobre Cawaia

quarta-feira, 16 de março de 2011

Redes Sociais Virtuais

Nos dias que correm é difícil imaginar uma vida sem televisores, leitores de multimédia, câmaras fotográficas, consolas de videojogos, telefones móveis, computadores e a internet que no seu conjunto nos apresentam as famosas Tecnologias de Informação e Comunicação que assentando em pressupostos de facilidade de criação, tratamento, armazenamento e transmissão da informação mudaram a forma de pensar e fazer o trabalho e o entretenimento humano, a sua utilização é factor de desenvolvimento.

O valor destas desde a ciência à arte, da educação ao entretenimento, do desporto à técnica é claramente indiscutível, porque a entrada dos processos automáticos de geração de informação, a destacando o computador como principal elemento deste conjunto, aumentaram a quantidade de informação, a qualidade, a rapidez de troca e encurtaram distâncias, trazendo eficiência e competitividade aos mercados.

Aos computadores que criavam, tratavam e guardavam a informação, acrescentou-se-lhes a capacidade de transmissão de qualquer lugar a qualquer hora ligados a uma rede mundial, surge a internet, que com o contributo de Tim Berners-Lee com a sua World Wide Web democratizou o seu uso, embora a ideia inicial fosse somente a troca de informação entre estudiosos da física.

Hoje a realidade da internet é tão presente e frequente, que mais do que existir nas nossas vidas, cria um mundo virtual paralelo, em que quase todos aqueles que ignoram tal realidade ficam de fora dos portais, endereços de email, canais de busca, mensagens instantâneas, blogs, wikis, mercados on-line, partilha de ficheiros P2P, bate-papos, bolsa de valores virtuais, imprensa online e as tão em voga redes sociais virtuais.

MySpace, Hi5, Badoo, Twitter e Facebook são nomes tão correntes no vocabulário do homem médio, deixando de ser interesse exclusivo dos entusiastas da internet, passando a ser uma extensão da vida social, um espaço de socialização mesmo que virtual de fazer e manter amigos, recordando aquela ideia do homem ser social que já não se confina a um espaço geográfico. Nas redes sociais virtuais encontramos, fazemos e mantemos velhos e novos amigos, parentes, colegas, namorados e até relações profissionais, através do poste de fotos, vídeos, música, notas a que os nossos amigos acompanham e comentam.

São dos sites que mais crescem tanto que no ranking da Alexa, o Facebook só perde pela Google em quantidade de acesso, com os seus usuários estimados em 500.000.000 segundo a Wikipédia, valendo-lhe uma excelente produção de Hollywood com o longa-metragem, A Rede Social, tornando Mark Zuckerberg o multi-milionário mais jovem segundo a Forbes com uma fortuna avaliada em 6.9 biliões de dólares, e rendendo-lhe o título de figura do ano pela Times magazine.

Para o angolano, mais do que meros usuários destes websites, já se vai entrando também como anunciantes e formadores de grupos e defensores de causas.

Mas nem tudo são rosas neste mundo que torna as pessoas cada vez mais ociosas e fúteis, resumindo a vida num conjunto de fotografias tiradas em momentos as vezes inglórios, limitando a privacidade e algumas vezes descambando em episódios de roubo de identidades e abrindo brechas na própria segurança dos sistemas, trazendo vírus, spams e hackers para as nossas máquinas cujos damos não se ficam pelo mundo virtual, mas transpondo-se para a realidade de uma forma traumática.

Na nossa história recente já vimos alguns episódios que recomendam cautela aos usuários e exigem regulamentação, para esta realidade que agora se nos apresenta, como protecção das pessoas e empresas, pouco ou muito avisadas em matérias de segurança.

Termino dizendo que o computador ou a internet são inofensivos sendo os homens os responsáveis pela feição que elas tomam.

Nobre Cawaia